Círio 33

Círio 33: porque a mamãe fala que paraense conta os anos pelos Círios que já viveu!
E os anos passam… problemas, aprendizados, vitórias, quedas, experiências, pessoas, doenças, romeiros, passam… Nossa Senhora de Nazaré passa na berlinda nesse final de semana mágico… e o que fica é a fé no milagre de – apesar de saber que tudo passará – crer que tudo se transformará sabiamente nas mãos de Deus e isso nos fortalecerá. E quando a renovação começa a se apagar durante o ano… chega o Círio outra vez pra reacender tudo que não devemos esquecer o ano inteiro: solidariedade, culto à família, união entre as raças e crenças, respeito ao próximo, consideração entre anônimos, esperança no coração, gratidão, fraternidade, perdão e reflexão sobre a fé em Deus.
A festa é mais do que religiosa. É cultural, é ritual e é parte da memória. A lembrança mais antiga que eu tenho de um Círio é do cangote do papai, aos 4 anos, com alguma coisa de miriti na mão e e um mundo de cabeças ao meu redor. Depois disso tanta coisa passou. Minha avó Merina, que também me criou, promovia a fé dentro de casa, transformando tudo em festinha. E pra mim, todos os rituais viraram tradição. 
Cada família guarda uma rotina dessa época. Tem casa que prefere pato no tucupi, outras querem maniçoba, outras colocam tudo junto na ceia. Ou, mesmo sem ceia, de alguma forma se confraternizam. Tem colecionadores de ventarolas. Tem o momento de amarrar a fitinha de pedidos. Tem a colagem do cartaz na porta de casa. A escolha da blusinha pra acompanhar a festa. E são tantos rituais particulares gostosos…
Eu me sinto felizarda por dar a sorte de me emocionar em vários cenários ao longo dos anos… acompanhando o barco dos milagres pela escola, na corda em vários anos, na procissão fluvial, cicloromaria, rodoviário, distribuindo água, protegendo a corda em cordão humano, trabalhando em pesquisa de campo, fotografando, indo de casa descalça até a corda e voltando a pé feliz por agradecer à santinha da forma que me satisfazia. E tudo guardado a cada ano fica latejando de emoção nesse período. 
Eu lembro do ritual da cadeira que levávamos pra frente do BASA pra assistir a Trasladação quando ainda nem era tão tumultuado como hoje em dia. Tinha o roc-roc que o vovô me dava logo que chegava pra aguardar a santinha (irritando os outros fazendo barulho). Lp, CD, mp3’s do Círio tocando em casa. E o lanche na Casa do Suco na Presidente Vargas depois que a berlinda da Trasladação passava, ainda criança, eu ficava observando da lanchonete os garis que ficavam limpando tudo tarde da noite… mas eles não estavam chateados, estavam sorrindo. Depois entendi que estavam felizes por fazer parte da organização da festa. Porque nessa festa tudo é devoção. Depois ia me pesar numa balança enorme e super velha que ficava numa drogaria ao lado do BASA… e constatava que, desde os primórdios da vida, estava sempre acima do peso… 
Círio é reflexão, transformação e recordações. Desejo à todos que o divino fique vivo dentro do coração de todos nós o ano inteiro!

Publicado em 09/10/2016, em Desabafos. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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