Cordão de Urubu

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Quando criança eu não tinha a menor noção de certas coisas. Eu brincava na rua descalça, mesmo ouvindo a mamãe gritar trocentas vezes pra eu colocar o chinelo. Pisava em poça, me atolava em vala, enterrava o pé na areia sem nem imaginar do que se tratava frieira. Fazia carrinho no limo e adorava escorregar naquela coisa verde. Eu esperava ansiosa a chuva cair pra sair correndo e me jogar na lama pra catar minhoquinhas que saiam da terra. Achava o máximo quando um caracol/caramujo grudava na minha perna e me acabava de rir com os colegas apontando. Catava paquinha e grilo, e o desafio era quem conseguia aguentar mais as cócegas que eles faziam nas mãos unidas. Não tinha medo de barata, nem de barata d’água, pegávamos elas pelo “chifrinho” pra assustar os outros. Peixinho/Larva/Girino era tudo comidinha das bonecas. Sem nojo algum. Ia pra casa dos meus primos e ficava jogando shampoo no banheiro pra escorregar com eles na lajota. Ninguém pensava em germes ou doenças. Comia coisas do chão, passava horas molhada depois da chuva, caia, me ralava e depois cutucava o cascão gostoso. Subia na árvore pra pegar fruta e comia, pra quê lavar? Na hora do banho misturava vários tipos de shampoo e creme numa vasilha e fazia uma gororoba de cabelo. Nos aniversários eu misturava um pouco de cada refri no copo formando uma mistureba estranha… unia cada docinho formando um verdadeiro tesouro! Era uma bola enorme e colorida de brigadeiro, casadinho, uvinha, e vários outros doces, me escondia pra comer sem ninguém pedir, lambia os dedos depois… os mesmos que estavam no chão antes. Abria o pacote de biscoito recheado e tirava o recheio de cada um pra fazer uma bolota gostosa marrom. Comi barro. Comi flor. Comi folha. Comi o pé da Barbie. Comi Super Massa. Comi pasta de dente. Acho que engoli mais chiclete do que comida. Pintei meu rosto com guache. Risquei meu corpo com giz. Desenhei tatuagem relógio de caneta bic no pulso. Bebia água de azeitona fingindo ser cachaça. Bebia num dia o vidro inteiro de xarope Bromil porque achava gostoso. Depois da aula ia na Feira dos Caramelos, comprava pacotes de pirulito, bombons, caramelos, chiclete, chocolate, jujuba, e tudo mais que fosse doce e metia tudo na boca tudo de uma vez no ônibus indo pra casa, já era meu almoço.

Quando criança temos um pouco de super herói. Só pode. Não sei como sobrevivi a tudo isso. Tenho uma amiga que vi criança, e sempre que a via na escola estava encardida, descabelada, suada, com cordão de urubu preto no pescoço e gola do uniforme arregalada. E eu nem acredito quando a vejo hoje em dia depois de tantos anos, nunca pensei que banho resolvesse aquela amiga tão podrona. Eu soube que ela passa por aqui pelo blog de vez em quando, aproveito pra deixar um abraço pra ela!

Por que crescemos? Por que ficamos com medo de barata, germes, doenças?

Saco.

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Publicado em 19/09/2014, em Recordações. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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