A Vela

 

 Houve uma época em que um sentimento altamente abastado tomou conta de meu imo e minha vida passou a girar em torno de trivialidades que nada acrescentaram em meu conhecimento empírico do mundo.

Este sentimento, basicamente uma mistura de vaidade e egoísmo, transformou num vazio minha história, uma vez que sem inspirações repentinas minha cabeça ficou solitária e a espera de uma luz que, como uma vela, permaneceu apagada durante longos anos.

Daí, recentemente, acendeu-se instantaneamente ofuscando seu brilho brando e elegante, iluminando vistosamente minha percepção de espaço e fatos. Quando o ser humano reconhece que está tomado por um conjunto de defeitos que, de alguma forma permitem o afastamento dos costumes habituais, significa que esta vela reacendeu-se dentro dele, queimando a chama da consciência despertada.

E é essencialmente isso que está acontecendo comigo, minha vela está ardendo em chamas. Estou atenta aos surpreendentes espetáculos do cotidiano. Estou voltando a viver. É bom sentir que isto está  renascendo dentro de mim.

Mas, é importante haver determinado realismo neste tipo de conjuntura. Quando alguém passa por bruscas transformações, em curto espaço de tempo, consegue fincar em sua alma marcas que jamais serão apagadas. Marcas estas, que para sempre irão florescer ao primeiro sinal de lembrança.

Voltando a vela… um exemplo muito simplório: Imagine uma vela, muito comprida, perolada, brilhante, uma vela linda, que no contexto acima assume o papel de alma. Esta vela queima, arde, e sua cera escorre pelo seu corpo, que consequentemente diminui. Quando, desta forma, a vela utiliza parte de seu corpo para passar por esta experiência de emissão de cera derretida, nunca mais será possível um derretimento igualitário da mesma, por mais que se fabrique uma nova vela com aquela mesma cera. Ainda sim, não será idêntica à anterior. Assim como na vida não existe algo completamente igual ao seu “semelhante”.  Pronto, a vela está com parte de seu corpo derretido, no caso, a alma está com parte de si atingida pelas experiências por quais passam os seres. A vela não voltará a ser a mesma, por mais que outra seja fabricada, “aquela vela” era “aquela vela”, portanto a alma não voltará jamais a ser “aquela alma” já que os acontecimentos deixam marcas que são incapazes de sumir. A cera derrete, mas não some, as experiências adormecem, mas nunca são apagadas.

Com este análogo é possível entender o que resta de mim. Um ser humano com uma alma cheia de marcas de um passado errante, que está cicatrizando suas chagas com a mais eficiente solução, o poder da renovação.

Publicado em 30/08/2005, em Desabafos. Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Calma… Muita calma nessa hora…Qute texto profundo! Ainda tô colocando as idéias em ordem…Mas olha só… pensei em uma continuação pra essa analogia…Imaginamos que uma vela queime em um castiçal, prato, tigela, enfim, onde, depois de ter se queimado por inteiro toda a cera será acumulada. Estão ali todas as marcas, tudo o que aconteceu com ela, simplesmente reunido novamente.Então se colocarmos toda essa cera com um novo pavio, ela voltará novamente a acender, com a mesma cera, com todas as suas marcas que voltarão a viver e a se unir formando novas e únicas marcas. É a mesma vela, mesma cera, mas renovada e vivendo de maneira diferente. As marcas do passado ajudarão a formas as marcas do futuro, que estão acesas por um novo motivo. Um pavio que um dia acaba e será substituído por outro.Será que deu pra entender o que eu quis dizer?Aff… Tô sem neurônios!Beijos!

  2. amiga..tô sem velas..serve lanterna !?? (será que é superficial e fútil!???). Adorei o texto.

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