Tananamnanammm tananamnanammm…

"Certa manhã de inverno, uma formiguinha saiu para seu trabalho diário. Já ia muito longe à procura de alimentos, quando um floco de neve caiu – Plim! – prendeu o seu pezinho. Aflita, vendo que não podia se livrar da neve, iria assim morrer de fome e frio, voltou-se para o sol e disse:
– Oh sol! Tu que és tão forte, derrete a neve que prende o meu pezinho."

Assim começa a saga da pobre formiguinha que presa na neve pede ajuda à personagens diversos que vão repassando a responsabilidade àqueles que consideram mais fortes. Num processo acumulativo de choramingo, a formiguinha implora ao sol, ao muro, ao rato, ao gato, cão, homem, morte e finalmente, à Deus. Esta é uma adaptação de João de Barro para o conto de Adolfo Coelho, que transcreveu a história baseado em um conto popular Português. É embalada pela melodiosa flauta de Radamés Gnatalli e ao som de orquestra de cordas e harpas.

Mas, mais importante que tudo isso, é a importância que esta história tem na minha família. Aos 6 anos, minha mãe ganhou um dos famosos disquinhos de histórias infantis e sua vitrola cansara de tocar A Formiguinha e a Neve – esta historinha que vos apresentei. Infância complicada, tempos difíceis, e ela dividia as rotações nas horas de lazer com meu tio e seu disquinho O Patinho Feio. Acabou que mamãe já havia decorado a história de tanto que ouvira, ela precisava fazer isso, já que um dia iria iniciar um repasse de gerações. Sim, eu nasci, e mamãe me presentou com um vinil, com algumas historinhas misturadas: Patinho feio, O Cabra Cabrez, O Lobo e os Cabritinhos. E aquele era o meu bolachão, não desgrudava. Não demorou muito para que eu também já soubesse toda a história, palavra por palavra, decorada. E a história foi me acompanhando por anos e anos, repassando aos amigos, às crianças… 

E quando foi ontem. Aniversário do meu irmão. O que ele ganha de presente? Isso! Um CD com a história da Formiguinha e a Neve. E de noite, nos encontramos Mamãe (trinta e poucos), eu (vinte e poucos) e meu irmão (5 aninhos) escutando a história e mais que isso, contando-a pro meu irmão junto com a narradora. Que lindo, foi gostoso ver que uma fábula relativamente antiga conseguiu tocar meu irmão que está na geração Cartoon Network e tinha tudo para considerar a historinha uma grande bobagem.

A Formiguinha e a Neve

 

Certa manhã de inverno, uma formiguinha saiu para seu trabalho diário. Já ia muito longe, à procura de alimento, quando um floco de neve caiu – pim! – e prendeu o seu pezinho!

Aflita, vendo que não podia livrar-se da neve e iria assim morrer de fome e de frio, voltou-se para o Sol e disse:

– Oh, Sol, tu que és tão forte, derrete a neve e desprende meu pezinho…

E o Sol, indiferente nas alturas, falou:

– Mais forte do que eu é o muro que me tapa!

Olhando então para o muro, a formiguinha pediu:

– Oh, muro, tu que és tão forte, que tapas o Sol, que derrete a neve, desprende meu pezinho…

E o muro que nada vê e muito pouco fala respondeu apenas:

– Mais forte do que eu é o rato que me rói!

Voltando-se então para um ratinho que passava apressado, a formiguinha suplicou:

– Oh, rato, tu que és tão forte, que róis o muro, que tapa o Sol,  que derrete a neve, desprende meu pezinho…

Mas o rato, que também ia fugindo do frio, gritou de longe:

– Mais forte do que eu é o gato que me come!

Já cansada, a formiguinha pediu ao gato:

– Oh, gato, tu que és tão forte, que comes o rato, que rói o muro, que tapa o Sol, que derrete a neve, desprende meu pezinho…

E o gato, sempre preguiçoso, disse bocejando:

– Mais forte do que eu é o cão que me persegue!

Aflita e chorosa, a pobre formiguinha pediu ao cão:

– Oh, cão, tu que és tão forte, que persegues o gato, que come o rato, que rói o muro, que tapa o Sol, que derrete a neve, desprende meu pezinho…

E o cão, que ia correndo atrás de uma raposa, respondeu sem parar:

– Mais forte do que eu é o homem que me bate!

Já quase sem forças,  sentindo o coração gelado de frio, a formiguinha implorou ao homem:

– Oh, homem, tu que és tão forte, que bates no cão, que persegue o gato, que come o rato, que rói o muro,
que tapa o Sol, que derrete a neve, desprende meu pezinho…

E o homem, sempre preocupado com seu trabalho, respondeu apenas:

– Mais forte do que eu é a morte que me mata!

Trêmula de medo, olhando a morte que se aproximava, a pobre formiguinha suplicou:

– Oh, morte, tu que és tão forte, que matas o homem, que bate no cão, que persegue o gato, que come o rato, que rói o muro, que tapa o Sol, que derrete a neve, desprende meu pezinho…

E a morte, impassível, respondeu:

– Mais forte do que eu é Deus que me governa!

Quase morrendo, a formiguinha rezou baixinho:

– Meu Deus, tu que és tão forte, que governas a morte, que mata o homem, que bate no cão, que persegue o gato, que come o rato, que rói o muro, que tapa o Sol, que derrete a neve, desprende meu pezinho…

E Deus, então, que ouve todas as preces, sorriu. Estendeu a mão por cima das montanhas e ordenou que viesse a primavera! No mesmo instante, no seu carro de veludo e ouro, a primavera desceu sobre a Terra,
enchendo de flores os campos, enchendo de luz os caminhos!

E, vendo a formiguinha quase morta, gelada pelo frio, tomou-a carinhosamente entre as mãos e levou-a para seu reino encantado, onde não há inverno, onde o Sol brilha sempre e onde os campos estão sempre cobertos de flores!

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Publicado em 10/06/2005, em Recordações. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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