A Maravilhosa Jornada entre Traças

Vasculhando as ruínas da consciência submersa em desvaneios híbridos (hein?), resgatei um dos melhores momentos da minha vida: o das cartas.

Lembro como se fosse ontem, meu pai foi morar no Japão e uma troca de correspondências iniciou-se. Não pensei que fosse levar tão a sério. Mas considerando que escrever para mim era mais que uma necessidade… era vital, não me surpreendi. E escrever só a carta do papai + contos/crônicas (eróticos, lógico haahhahaah sacanagem) já não me bastava… comecei a escrever para Clubes de Correspondências Nacionais… e aí… começou o vício. Quem me conhece já viu o calo que até hoje tenho no dedo (é sempre bom reforçar: de tanto escrever).

A Criação de um Clube (Pen Pal Club) + o Atendimento Personalizado VIP – essas eram minhas prioridades. Cada pessoa era uma realidade, uma conversa, uma discussão, um papel decorado, um conselho, uma lembrancinha, um segredo compartilhado… E o círculo foi crescendo, foi aumentando… o clube já contava com mais de 200 cadastrados… depois, conheci outros colecionadores de cartão telefônico e efetuava trocas… e aí… quando me dei conta, já estava escrevendo mais de 20 cartas por dia! Pessoas do Brasil inteiro, algumas de Portugal, um da Bélgica e uma dos EUA. Troca de cultura, costumes, informações, conselhos, histórias, objetos… puxa, recompensador.

Que gostoso era chegar em casa e ver aquela cartinha me esperando em cima da mesa. Aos poucos, penetrar (opa) no mundo do outro, mergulhar numa fantasia – independente da “real-realidade” – valia a magia do transportar, do conhecer, do compartilhar… muito gostoso. Eram madrugadas acordada naquela escrivaninha… uma musiquinha bem suave de fundo… submergindo naquele mundo só meu, silencioso, tranquilo e, acima de tudo, ilimitado.

E hoje, remexendo em caixas de memória, encontrei várias coisas de pessoas que passaram por este momento da minha vida. Fotografias, cartões-postais, presentinhos… quantas pessoas conheci! Infelizmente, depois de quatro anos na ativa o meu tempo começou a ficar escasso, a minha vida turbulenta… os meus problemas de pré-adolescente foram superados pelos da “real-realidade”. Me dei conta que é assim que funciona. A “real-realidade” é uma tsunami das maravilhas, que devasta o belo, desequilibra a estabilidade, derruba as conjecturas para despertá-lo e desiludi-lo.

Eternizável, carinhosa, personalizada…nada melhor do que cartas. Neste contexto, uma vaia para os antipáticos, frios e insosos e-mails: UHHH!!!

Publicado em 26/02/2005, em Recordações. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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